O que fizemos com a fotografia?


Não existe ninguém com o celular!

Gostaria muito de compartilhar com você, leitor, algumas observações sobre nosso tempo e alguns questionamentos sobre a fotografia. Desde criança, sou fascinado com essa incrível forma de expressão da humanidade. Há muitos anos dedico minha vida não apenas a fotografar, mas a tudo aquilo que a fotografia traz. Acredito que existe arte na fotografia, poesia, movimento, existe abstração, mensagens, existem textos, relatos, existe inquietude, ação, paz, conforto, existe nela algo que só a filosofia pode revelar. Talvez a fotografia seja tão complexa que nós não tenhamos ainda a real dimensão de sua força! 

O termo fotografia significa desenhar com a luz. Muitos falam sobre diversos aspectos de sua natureza e do seu poder! Se observarmos mais a fundo, chegaremos a algo extraordinário. A fotografia é a arte de congelar a Luz, o tempo e o espaço, eternizando-os em um pedaço de papel. Pegue uma fotografia, olhe para ela atentamente. Você não verá apenas uma imagem, verá um momento do tempo, contendo um pedaço do nosso espaço, que, através da luz, foi usado naquele instante para ser fixado ali. É um relato de algo que de fato aconteceu, uma realidade presente, vinda do passado. Toda fotografia é uma viagem ao passado, desde o instante em que foi feita. E jamais poderá ser igual. Pois é, a fotografia é um momento no tempo que foi registrado e de fato existiu e continua existindo no presente, mesmo vinda do passado. A fotografia traz emoção, é carregada de significados e uma forma infinita de interpretações, pois em cada ser ela tem a capacidade de despertar algo inusitado. 

Se você não tivesse, de forma alguma, um modo de retratar tudo aquilo que acontece ao seu redor? Se você não tivesse a chance de registrar um momento importante em sua vida? Como seria sua vida hoje sem essa tecnologia? Nos primórdios de nossa existência, não tínhamos as tecnologias necessárias para tal situação. Após anos de evolução, nossa espécie dá seus primeiros passos rumo ao abstrato, mostrando com pinturas em paredes de cavernas e pedras ao redor de suas primitivas moradias, situações de seu cotidiano e acontecimentos de grande importância até então. 

Nossa necessidade de expressão é tão primitiva quanto a própria comunicação, e tudo isso vem evoluindo. Em tempos mais remotos, a fotografia era um evento peculiar. Pessoas se reuniam para fazer uma foto, era de fato um acontecimento. Depois de alguns anos, ela começou a se popularizar, porém, com suas restrições. A fotografia passou a ser vista como uma forma de arte, principalmente por fotógrafos que passaram a usá-la com tal intuito. A fotografia foi usada de diversas formas, registros de viagens e expedições, relatos de descobertas, guerras, fome, grandes acontecimentos, etc. A fotografia passou a fazer parte indivisível de nossa vida! 

Hoje a fotografia se popularizou como nunca, tudo gira em torno de fotos e vídeos. Passamos a ter uma necessidade de mostrar tudo que fazemos, queremos compartilhar com os nossos amigos, familiares e pessoas que nem conhecem nossa rotina. As redes sociais e a tecnologia aceleram nossa fome por fotografar. Ninguém imaginaria alguém fotografando um ovo no café da manhã logo no início dessa incrível descoberta. Fotografar era caro, era preciso muita coisa, muito conhecimento e técnica, algo que não poderia ser desperdiçado com uma foto de algo tão comum. Não sou contra o que as pessoas fazem hoje, mas sinto falta do romantismo que se foi. De sentarmos e abrirmos um álbum de fotos, de parar para tomar um café e recordar o passado. Lembrar momentos especiais e de vivenciar todas as emoções que continham ali. 

Hoje estamos presos nessa grande onda de nos sentirmos populares, de termos aprovação de pessoas que nem conhecemos, curtidas, comentários, visualizações, etc. Nos tornamos imediatistas ao extremo. Não sei se isso de fato é uma evolução, me pergunto todos os dias se estamos no rumo certo! Antes, ficávamos esperando a chegada do álbum, com aquele frio na barriga, para sabermos o que vinha pela frente, de nos reconhecermos, de ver tudo que havíamos registrado com o intuito de recordarmos o que vivemos. Hoje estamos esperando uma recompensa imediata, queremos tudo na hora! A fotografia mudou ou fomos nós que mudamos a fotografia? Hoje não estamos querendo reviver o que vivemos, mas de mostrarmos o que temos condições de viver. Isso é culpa da fotografia? Ou estamos nos perdendo com essa fantástica forma de nos expressarmos? Será que estamos de fato utilizando-a com seu máximo potencial? Será que precisamos refletir sobre o que estamos fazendo com nossas vidas? 

Não há ninguém fotografando o lago com o celular!

Jamais na história relatamos tantos casos de ansiedade e depressão. Especialistas afirmam que grande parte de tudo isso é devido ao alto grau de exposição que estamos recebendo. Vamos deixar uma coisa bem clara, não sou contra as redes sociais, ou até mesmo das pessoas que fotografam um ovo no café da manhã, eu mesmo já fiz isso, eu uso as redes sociais. Adoro fotografia do cotidiano, amo fotografar comida e coisas aleatórias. E é por esse motivo que estou escrevendo sobre esse assunto. Não é a fotografia, não é o filme, é a nossa vaidade, nossa vontade de nos afirmarmos dentro de nossas comunidades, dentro dos nossos círculos sociais que está causando toda essa confusão. Isso se chama aprovação social. Talvez nossos excessos estejam destruindo toda uma geração. Perdemos a capacidade de criar nossos desejos, para desejarmos o que outras pessoas estão vivendo. Sendo constantemente influenciados por aqueles que vivem na escravidão do conteúdo diário e imediato. Muita gente deixou de comprar livros, para lerem trechos curtos, de rasos conteúdos, escritos por especialistas formados por suas equipes de marketing. Não recrimino de forma alguma quem cria conteúdo, não é sobre quem cria, ou sobre quem assiste, nem sobre a qualidade do conteúdo em si, mas sim sobre quem não entende o que isso representa. Espero que você esteja entendendo minha retórica, não quero julgar ninguém, e sim fazer um alerta, uma simples reflexão, para que tudo isso que absorvemos hoje não seja um gatilho de tristeza e sim de esperança. Muita gente se vê no fundo do poço, acreditando que sua vida é sem graça, pois constantemente veem pessoas em lindos passeios, rindo, felizes, comendo, bebendo, mostrando suas lindas casas, seus carros de luxo, o que ganham, o que tem, etc. Fico feliz de ver pessoas felizes, mas existem pessoas, que não sabem lidar com tais situações. Passam a entrar em uma bola de neve, param de enxergar que sua vida pode ter um grande valor, comparado-se com outras pessoas à sua própria vida. Justificando seu fracasso no sucesso do outro. Se culpando por não conseguirem vivenciar tanta coisa. 

Acho incrível as redes sociais, acho fantásticas essas ferramentas que ligam pessoas, temos agora a oportunidade de ver o mundo todo, culturas, gastronomia, arquitetura, ensinamentos, diversão, temos a oportunidade de viajar a outros locais apenas em um instante. Temos a chance de mostrar nossos trabalhos, expressar nossas opiniões, de ensinarmos e compartilharmos informações tão importantes. Ela proporciona tudo isso com a fotografia e videografia. Acredito que se soubermos ter equilíbrio e não vivermos presos somente a isso, podemos crescer e aprender muito uns com os outros. Temos que ter filtros, dosar o tempo, não esquecendo de que a vida real não é ali. A realidade é contada com humanos desconectados da internet. Ali é a vida do outro e não a sua! 

Atentem-se! Grande parte das pessoas não faz um registro sobre algo, elas querem expor algo. Existe uma diferença entre registrar algo e expor algo. Será que a felicidade é sobre expormos tudo que fazemos? Muitos fazem pela lembrança, outros pelo fato de exporem e no seu íntimo, sabem que aquilo não foi para um dia recordar, e sim para afirmarem que estão aqui ou ali, comendo isso ou aquilo, comprando isso ou aquilo, dessa forma podemos constatar que não foi pelo registro, foi pela vontade de aparecer. Passamos a usar a fotografia e a videografia, em muitos casos, não mais como ferramenta de registro ou de criação de artes, mas como uma ferramenta para alimentar nosso ego. Alimentarmos a vaidade, o orgulho e tentar se sobrepor ao outro menos favorecido. Lembrando que não são todas as pessoas que fazem isso, e inclusive tudo dependerá da interpretação de quem visualiza. 

Se abrirmos os olhos, veremos que tal fato é mais real do que imaginamos ser, inclusive em muitos momentos já fiz isso. Desejo muito evoluir sobre essa dependência que foi criada inconscientemente pela disputa vaidosa de muitos e acaba contaminando grande parte da população. Vou relatar algo do qual vocês podem ter uma pequena ideia do que digo. Dia dos avós, muitos tiram uma bela foto, sorrindo e com a família junta. Quem está de fora imagina, que lindo isso, queria a minha família assim também. Na realidade, aquilo foi apenas uma imagem, criando uma mensagem de felicidade, fraternidade e união. Os avós ficaram, como de costume, em uma cadeira de balanço, vendo seus filhos e netos passarem o dia com o celular na mão. Não ouviram histórias, nem pegaram os álbuns de fotografia, não pediram conselhos, nem deram a devida atenção a quem tanto necessita. Fizeram fotos do prato, das bebidas, da sobremesa e por fim deram um abraço de despedida, achando que estiveram ali, mas não estiveram, estavam conectados com outros que fizeram o mesmo. 

Quero deixar apenas uma singela reflexão sobre a importância da fotografia, de como estamos utilizando a mesma e de que forma podemos nos policiar com o uso dela. Ela é algo tão incrível que hoje compramos um aparelho de comunicação de voz, e o primeiro requisito é saber se ele tem uma boa câmera, se o aparelho é rápido, se tem bastante espaço, nem paramos para observar que o intuito dele é ligarmos uns para os outros. 

Passem a imprimir suas fotos, sente-se juntos, contemplem aquele momento vivido no passado, alegres no presente por terem a oportunidade de reviver tudo que foi vivido até então. Não deixam suas vidas resumidas em imagens presas em uma rede social qualquer. Uma fotografia torna-se de fato uma fotografia quando ela é impressa. 

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